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Questionário de Proust revisitado por Joel Neto: As respostas de Carla Maia de Almeida

Evita usar o medo das palavras grandes nos seus livros, a hipopotomonstrosesquipedaliofobia, e consulta o Google sempre que surge alguma dúvida maior, como quando necessitou de pensar numa atividade que gerasse dinheiro rápido e fácil. Carla Maia de Almeida é sem dúvida uma autora tão à frente do seu tempo, que o parágrafo que mais gostou de escrever pertence a um livro seu ainda por publicar, Irmão Lobo, que sairá no próximo ano, com a chancela da editora Planeta Tangerina.

Porque decidiu tornar-se escritora? Foi só por vaidade?
Não exatamente. Fui ao Google e escrevi: «Como ganhar dinheiro rápido e fácil». Entre tornar-me revendedora da Avon, fazer pesquisas de mercado ou frequentar o site de apostas da Santa Casa de Misericórdia, pareceu-me difícil escolher. Então achei que ser escritora podia ser mais giro e interessante. Permite-me estar fechada em casa durante dias e dias, enquanto as outras pessoas gastam dinheiro em gasolina ou a beber copos com os amigos. É todo um mundo de vantagens.

Qual foi o melhor parágrafo que já escreveu ou, pelo menos, a melhor frase?
Agora a sério: não sei. Mas gosto deste parágrafo que escrevi recentemente, porque me deu bastante trabalho até chegar à imagem que queria: «O Malik ficou com o terraço só para ele. E nós ficámos com o pedaço de mar que se avistava ao longe, um anel azul brilhante encaixado entre os dedos dos prédios e o braço longo da autoestrada.» Já agora: Malik é um cão, e o parágrafo faz parte do meu próximo livro, uma novela juvenil que será publicada em 2013 pelo Planeta Tangerina, com ilustrações de António Jorge Gonçalves. Chama-se Irmão Lobo.

E qual o parágrafo que mais lamenta não ter sido você a escrever ou, pelo menos, a frase?
«Mas sou um repórter: Deus só existe para os escritores de artigos de fundo.» Graham Greene, O Americano Tranquilo.

Quantas vezes, ao longo das últimas correções num livro, é assaltada pelo medo de morrer sem que o mundo possa usufruir da sua obra?
Quando sou assaltada pelo medo de morrer, saco logo do meu Colt 45.

Já conseguiu perdoar-se por ter publicado o seu primeiro livro?
Teria de me sentir superior a mim para me perdoar; e, ao mesmo tempo, levar-me demasiado a sério para ser perdoada por mim. Acho que é um paradoxo ontológico.

Acha que não se vai arrepender também de publicar o próximo?
Não sou dada a arrependimentos. Só me interessa «falhar cada vez melhor» (Beckett). Mas, se me arrepender, juro que não confesso.

Que livro gostaria mesmo de escrever e sabe que não será capaz?
O Sentido da Vida Explicado às Crianças. Tendo como consultores editoriais os Monty Python.

Também está convencida de que as suas melhores ideias se perderam porque, circunstancialmente, não foi capaz de as anotar? E quando é que começa a fazer alguma coisa quanto a isso?
Mas eu anoto. Metódica e meticulosamente, em cadernos A5 de capa preta e papel quadriculado, todos iguais, desde há 12 anos. Resulta.

Que temas são absolutamente impossíveis de plasmar em literatura verdadeira?
«Plasmar em literatura verdadeira?». Cruzes, canhoto.

Que palavra tenta nunca usar num livro?
«Hipopotomonstrosesquipedaliofobia», o medo das palavras grandes (juro, é verdade, vão ao Google).

Que palavra usaria para rimar com «amor»?
«Rio de Onor.»

Quantas vezes, ao longo da sua juventude, disse que Jane Austen era «uma merda»?
Lamentavelmente, não li Jane Austen na minha juventude. Lia Camus, Duras e outros autores que ficavam melhor com a cor dos sofás da Cinemateca. Tinha a mania de que era intelectual. É pena, porque poderia ter arranjado um bom partido, que hoje me permitiria escrever sem preocupações materiais. Claro que também poderia sofrer de ennui, preguiça e obesidade, mas pronto, não se pode ter tudo.

Quantas vezes, desde que se tornou escritora, mandou Jane Austen à merda por não conseguir escrever como ela?
Acho pouco curial insultar pessoas que não nos podem responder à letra. E como não frequento círculos espíritas, creio bem que a comunicação com Jane Austen me está vedada. No entanto, se pudesse, acho que lhe diria: «Caramba, mulher, isso é que foi força de vontade!»

Com qual das suas personagens mais gostaria de ter namorado?
Nenhuma. Acho que isso abriria a minha ferida narcísica.

E das personagens dos outros?
É uma paixão já publicamente revelada: Ianes, o amigo português de Sandokan, extraordinária personagem de Emilio Salgari. Agrada-me o charme da maturidade e aquele ar nonchalant de quem se está nas tintas para o poder.

Como é que disfarça quando alguém se zanga por tê-la usado como personagem?
Já me usaram mais de uma vez. Felizmente, mal me reconheci.

Que livro mais gostaria de destruir? (Por favor, não responda Mein Kampf.)
Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis. Pornografia pura da violência e da crueldade. Ao pé disso, Mein Kampf parece um livro de desenvolvimento pessoal.

O que é que não trocava por nenhum livro deste mundo?
Não trocava nem vendia a alma por nenhum livro deste mundo. Nem do outro, em o havendo.

Qual a melhor primeira frase de um romance que alguma vez leu?
«Foi um verão estranho e sufocante, aquele em que eletrocutaram os Rosenberg.» Sylvia Plath, A Câmpanula de Vidro.

E, no entanto, não consegue lembrar-se do desenlace desse livro, nem aliás dos de tantos outros: porquê?
Aaah… Qual era a pergunta?

Os Lusíadas ou a Mensagem?
Só li partes. Não posso responder com propriedade.

 (Respondeu «os dois», não respondeu? Então, vá, agora a sério.) O Codex 632 ou Não Há Coincidências?
Pior ainda. Não li nenhum.

 (Continuou sem se conseguir decidir por um, não continuou? Confesse: não leu nenhum deles. Então, pronto, segue uma mais fácil.) O Céline era um porco nazi ou um cronista da oralidade como nunca houve outro?
Hum… E que tal antes um misantropo que adorava animais?

 (E agora para o que realmente interessa.) Um manuscrito desconhecido de Cesário Verde ou uma vitória do Benfica?
Nem se pergunta: prefiro o Verde.

Até quando está decidida a esperar até, enfim, ler um livro num iPad?
Até que me seja possível. As minhas 12 dioptrias aconselham a que passe o menos tempo possível em frente a ecrãs. O meu segundo livro, Não Quero Usar Óculos, é baseado numa história verídica.

Não quer alinhar na montagem de uma milícia guerrilheira para evitar a aplicação definitiva do mais recente Acordo Ortográfico?
Sou mais do tipo atirador solitário.

Confesse: se soubesse que este inquérito era tão parvo (e tinha tantos palavrões), teria acedido a responder-lhe?
Claro que não.

Não está já um bocadinho cansada da técnica da autodepreciação?
A autodepreciação e a autocondescendência são as ressacas do escritor. É por isso que não escrevo debaixo de estados alterados de consciência.

Agora a sério: em que página desistiu da Recherche?
Estou a guardar a Recherche para as minhas leituras de maturidade. Já falta pouco.