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Questionário de Proust revisitado por Joel Neto: As respostas de Luís Aguilar

Luís Aguilar, autor da Bookoffice, foi o primeiro a aceitar o desafio e a responder ao Questionário de Proust revisitado por Joel Neto.

Porque decidiu tornar-se escritor? Foi só por vaidade?
Foi só para conhecer miúdas giras. Quando percebi que não resultava, já tinha vários contratos assinados e alguns livros publicados. Fiquei preso no meio das letras e das noites mal dormidas. As miúdas giras ainda não apareceram.

Qual foi o melhor parágrafo que já escreveu ou, pelo menos, a melhor frase?
«Esta é a Leila. Um rebuçado explosivo, um caramelo espanhol made in Seixal. Fode com a mesma garra de um exército vietnamita que protege o seu general das bombas americanas.» Retirada do meu segundo livro (Sexo, Morte e Futebol). Eu sei, eu sei. Mas foram vocês que perguntaram. Talvez tenha feito um melhor, mas lembrei-me deste.

E qual o parágrafo que mais lamenta não ter sido você a escrever ou, pelo menos, a frase?
«I fell in love with football as I was later to fall in love with women: suddenly, inexplicably, uncritically, giving no thought to the pain or disruption it would bring with it» (Nick Hornby, Fever Pitch).

Quantas vezes, ao longo das últimas correções num livro, é assaltado pelo medo de morrer sem que o mundo possa usufruir da sua obra?
Nunca. Corrijo sempre os meus livros com o colete salva-vidas vestido.

Já conseguiu perdoar-se por ter publicado o seu primeiro livro?
Nunca.

Acha que não se vai arrepender também de publicar o próximo?
Espero bem que não.

Que livro gostaria mesmo de escrever e sabe que não será capaz?
As conversas secretas entre Salazar e Eusébio.

Também está convencido de que as suas melhores ideias se perderam porque, circunstancialmente, não foi capaz de as anotar? E quando é que começa a fazer alguma coisa quanto a isso?
Gosto de me convencer de que perdi boas ideias por não apontar, mas não vou começar a fazê-lo porque assim ficava com a certeza de que essas ideias, afinal, eram muito fraquinhas.

Que temas são absolutamente impossíveis de plasmar em literatura verdadeira?
Os efeitos secundários provocados pela enguia candiru. Também conhecida por «cobra do pénis». Muito comum nos rios da Amazónia.

Que palavra tenta nunca usar num livro?
Salmonela.

Que palavra usaria para rimar com «amor»?
Aspirador.

Quantas vezes, desde que se tornou escritor, mandou Jane Austen à merda por não conseguir escrever como ela?
Algumas.

Com qual das suas personagens mais gostaria de ter namorado?
Com a Leila, de Sexo, Morte e Futebol.

E das personagens dos outros?
Com a Catherine Tramell, para lhe tirar a mania dos picadores de gelo.

Como é que disfarça quando alguém se zanga por tê-lo usado como personagem?
Não tenho muito jeito para disfarçar. Peço desculpa e tento fechar os olhos antes de levar com a água (ou outro líquido) que estava dentro do copo.

Que livro mais gostaria de destruir? (Por favor, não responda Mein Kampf.)
Qualquer um da Margarida Rebelo Pinto.

O que é que não trocava por nenhum livro deste mundo?
Ver o Benfica ganhar a Champions.

Qual a melhor primeira frase de um romance que alguma vez leu?
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.»

E, no entanto, não consegue lembrar-se do desenlace desse livro, nem aliás dos de tantos outros: porquê?
Lembro-me perfeitamente do desenlace desse livro e de muitos outros. Algo que não acontece com os livros que escrevi.

Os Lusíadas ou a Mensagem?
Os Lusíadas.

(Respondeu «os dois», não respondeu? Então, vá, agora a sério:) O Codex 632 ou Não Há Coincidências?
A Margarida, não. A Margarida, não. Por favor.

(Continuou sem se conseguir decidir por um, não continuou? Confesse: não leu nenhum deles. Então, pronto, segue uma mais fácil:) O Céline era um porco nazi ou um cronista da oralidade como nunca houve outro?
Um cronista da oralidade como poucos que se foi tornando um porco nazi.

(E agora para o que realmente interessa:) Um manuscrito desconhecido de Cesário Verde ou uma vitória do Benfica?
Uma vitória do Benfica, claro. Mesmo que seja num jogo de pré-época daqueles estágios manhosos na Suíça.

Até quando está decidido a esperar até, enfim, ler um livro num iPad?
Já li. Agora estou decidido a cozinhar a minha primeira refeição num iPad. Um bitoque.

Não quer alinhar na montagem de uma milícia guerrilheira para evitar a aplicação definitiva do mais recente Acordo Ortográfico?
Sou um vendido. Já tenho livros publicados com o novo AO. Mas, se houver croquetes na milícia guerrilheira, sou capaz de lá dar um salto.

Confesse: se soubesse que este inquérito era tão parvo (e tinha tantos palavrões), teria acedido a responder-lhe?
Seria uma perda de tempo se não tivesse tantos palavrões.

Não está já um bocadinho cansado da técnica da autodepreciação?
É o melhor que consigo arranjar.

Agora a sério: em que página desistiu da Recherche?
Na capa.