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Questionário de Proust revisitado por Joel Neto: As respostas de Luís Miguel Rocha

Diz que começou a escrever para ter olhos verdes e, ao que parece, tem resultado. Afirma também que as melhores ideias ainda não lhe apareceram, mas que, provavelmente, quando surgirem, talvez não se dê conta delas. Suspeitamos, contudo, que alguma boa ideia já terá tido, caso contrário, as histórias dos seus livros não conquistariam tantos leitores pelo mundo fora. De momento, agradecemos a sua boa-vontade e solidariedade, que o faz ajudar o próximo, e que levou Luís Miguel Rocha a responder ao Questionário de Proust revisitado por Joel Neto.

Porque decidiu tornar-se escritor? Foi só por vaidade?
Como o Montalban escrevia para ser alto e bonito, o DeLillo para descobrir a quantidade da sua sabedoria, Lord Byron para esvaziar a cabeça e não ficar louco, o Moravia para saber por que escrevia, eu decidi escrever para ter olhos verdes. E não é que funciona mesmo?

Qual foi o melhor parágrafo que já escreveu ou, pelo menos, a melhor frase?
«Quanto menos se sabe mais se crê.» (Pedir que me lembre de um parágrafo é ousado.)

E qual o parágrafo que mais lamenta não ter sido você a escrever ou, pelo menos, a frase?
«No dia seguinte ninguém morreu.»

Quantas vezes, ao longo das últimas correções num livro, é assaltado pelo medo de morrer sem que o mundo possa usufruir da sua obra?
Ler resposta à pergunta anterior? No dia seguinte ninguém morreu. A morte é coisa de que ainda não me lembro. Talvez, com a idade, esse medo apareça. Até lá, o mundo vai ter de me aturar.

Já conseguiu perdoar-se por ter publicado o seu primeiro livro?
E alguém se perdoa? Há tanta imaturidade num primeiro livro. É como ir crescendo com cada livro. Espero eu.

Acha que não se vai arrepender também de publicar o próximo?
Arrependi-me antes de o começar a escrever, portanto agora já passei essa fase.

Que livro gostaria mesmo de escrever e sabe que não será capaz?
Sempre me fascinaram os livros de atas. Por outro lado, odeio reuniões.

Também está convencido de que as suas melhores ideias se perderam porque, circunstancialmente, não foi capaz de as anotar? E quando é que começa a fazer alguma coisa quanto a isso?
Ainda não tive as minhas melhores ideias. Mas é provável que, quando as tiver, nem dê por elas. Dizem que passam a correr.

Que temas são absolutamente impossíveis de plasmar em literatura verdadeira?
Nenhum tema é impossível de plasmar. Mesmo o da literatura verdadeira, seja lá o que isso for, foi plasmado por grandes autores, como Borges, por exemplo.

Que palavra tenta nunca usar num livro?
Vide resposta da próxima pergunta.

Que palavra usaria para rimar com «amor»?
O nome dela.

Quantas vezes, ao longo da sua juventude, disse que Jane Austen era «uma merda»?
Não insulto pessoas que não conheço.

Quantas vezes, desde que se tornou escritor, mandou Jane Austen à merda por não conseguir escrever como ela?
Vide resposta da pergunta anterior.

Com qual das suas personagens mais gostaria de ter namorado?
Não seria ético misturar trabalho com prazer.

E das personagens dos outros?
Ena, tantas. A Caris do World Without End, a Jane Eyre, a Blimunda do Saramago, até a Mara do A Mulher-Casa, que li há pouco tempo. Estou a ficar deprimido com a minha tendência para mulheres sofridas. A Lisbeth Salander, ui, o que eu faria com a Lisbeth. A Julieta, a Isolda, a Emma Rouault. Vou atirar-me ao rio.

Como é que disfarça quando alguém se zanga por tê-lo usado como personagem?
Já me aconteceu ser usado como personagem. A zanga, em si, é um disfarce. No fundo gostam.

Que livro mais gostaria de destruir? (Por favor, não responda Mein Kampf.)
O Segredo. Porque, se encontrar um lugar de estacionamento, foi pensamento positivo; caso contrário, é porque não me esforcei o suficiente a pensar positivo. Bah!

O que é que não trocava por nenhum livro deste mundo?
A minha biblioteca; a minha família; ela; os amigos… chega?

Qual a melhor primeira frase de um romance que alguma vez leu?
Vide resposta à terceira pergunta. Obviamente não quero pensar mais nisso.

E, no entanto, não consegue lembrar-se do desenlace desse livro, nem aliás dos de tantos outros: porquê?
Para de entrar na minha cabeça.

Os Lusíadas ou a Mensagem?
Que têm?

(Respondeu «os dois», não respondeu? Então, vá, agora a sério:) O Codex 632 ou Não Há Coincidências?
Que têm?

(Continuou sem se conseguir decidir por um, não continuou? Confesse: não leu nenhum deles. Então, pronto, segue uma mais fácil:) O Céline era um porco nazi ou um cronista da oralidade como nunca houve outro?
Era as duas coisas. Porco, nazi, antissemita e, infelizmente, também escrevia muito bem.

(E agora para o que realmente interessa:) Um manuscrito desconhecido de Cesário Verde ou uma vitória do Benfica?
A que propósito se começou a falar de coisas impossíveis?

Até quando está decidido a esperar até, enfim, ler um livro num iPad?
Num iPad não gosto. Mas se os disponibilizarem no Kindle nunca mais leio em papel.

Não quer alinhar na montagem de uma milícia guerrilheira para evitar a aplicação definitiva do mais recente Acordo Ortográfico?
Parece-me bem. Vão indo, que eu vou lá ter.

Confesse: se soubesse que este inquérito era tão parvo (e tinha tantos palavrões), teria acedido a responder-lhe?
Estou sempre disposto a ajudar o próximo.

Não está já um bocadinho cansado da técnica da autodepreciação?
Quem faz isso não é aquele das traquitanas?

Agora a sério: em que página desistiu da Recherche?
Na primeira pergunta. Olé!