José Eduardo Agualusa©Jorge Simão
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Questionário de Proust revisitado por Joel Neto: As respostas de José Eduardo Agualusa

O seu primeiro livro de ficção não o envergonha. Já o de poesia, é outra história. Mas não se preocupa muito, pois «ninguém leu». Surpreende-nos, contudo, pelo seu otimismo: acredita que mesmo num mau livro há uma boa frase e que, nas más pessoas, pode haver boas fases. Por tudo isso, acreditamos que vale a pena ler até ao fim as suas respostas ao Questionário de Proust revisitado por Joel Neto.

Porque decidiu tornar-se escritor? Foi só por vaidade?
Não, foi mesmo por prazer e necessidade. Pagavam-me — e eu gostava. Ainda gosto — e ainda me pagam.

Qual foi o melhor parágrafo que já escreveu ou, pelo menos, a melhor frase?
Ainda não escrevi, mas estou quase lá.

E qual o parágrafo que mais lamenta não ter sido você a escrever ou, pelo menos, a frase?
«No principio era o verbo.»

Quantas vezes, ao longo das últimas correções num livro, é assaltado pelo medo de morrer sem que o mundo possa usufruir da sua obra?
Nunca. Não tenho a menor intenção de morrer.

Já conseguiu perdoar-se por ter publicado o seu primeiro livro?
O meu primeiro livro, um romance histórico, ainda não me envergonha. O segundo, de poesia, poderia envergonhar, mas felizmente ninguém o leu.

Acha que não se vai arrepender também de publicar o próximo?
Não. Mas certamente haverá quem se arrependa de o ter comprado.

Que livro gostaria mesmo de escrever e sabe que não será capaz?
Um romance sobre a vida e a morte de Jonas Savimbi.

Também está convencido de que as suas melhores ideias se perderam porque, circunstancialmente, não foi capaz de as anotar? E quando é que começa a fazer alguma coisa quanto a isso?
Não. As minhas melhores ideias são tão boas que não se perdem.

Que temas são absolutamente impossíveis de plasmar em literatura verdadeira?
Nenhum. E o que é literatura verdadeira — uma religião?

Que palavra tenta nunca usar num livro?
Tento nunca usar? Eu não tento. Não uso e pronto.

Que palavra usaria para rimar com «amor»?
«Fulgor.»

Quantas vezes, ao longo da sua juventude, disse que Jane Austen era «uma merda»?
Nunca.

Quantas vezes, desde que se tornou escritor, mandou Jane Austen à merda por não conseguir escrever como ela?
Também nunca — este inquérito é só para escritores portugueses?

Com qual das suas personagens mais gostaria de ter namorado?
Acho que namorei.

E das personagens dos outros?
Várias personagens femininas do Rubem Fonseca. Não digo quais.

Como é que disfarça quando alguém se zanga por tê-lo usado como personagem?
Nunca aconteceu. Nunca ninguém se reconhece numa personagem ruim. Por muito que a gente gostasse que isso acontecesse.

Que livro mais gostaria de destruir? (Por favor, não responda Mein Kampf.)
Nenhum. Não destruo livros, nem pessoas, nem sequer mosquitos. Mesmo nos piores livros pode haver uma frase boa. Mesmo nas piores pessoas pode haver uma fase boa. Febril, com malária, tive grandes ideias. Acho que sou meio budista.

O que é que não trocava por nenhum livro deste mundo?
Há um mundo de coisas que nunca trocaria por nenhum livro.

Qual a melhor primeira frase de um romance que alguma vez leu?
«Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados.»

E, no entanto, não consegue lembrar-se do desenlace desse livro, nem aliás dos de tantos outros: porquê?
Porque prefiro os começos aos finais?

Os Lusíadas ou a Mensagem?
A Mensagem.

(Respondeu «os dois», não respondeu? Então, vá, agora a sério:) O Codex 632 ou Não Há Coincidências?
Caramba, Joel — tu não me conheces?

(Continuou sem se conseguir decidir por um, não continuou? Confesse: não leu nenhum deles. Então, pronto, segue uma mais fácil:) O Céline era um porco nazi ou um cronista da oralidade como nunca houve outro?
Ambas as coisas. Uma coisa não impede a outra — mas devia.

(E agora para o que realmente interessa:) Um manuscrito desconhecido de Cesário Verde ou uma vitória do Benfica?
Verde ou vermelho? Prefiro preto e vermelho.

Até quando está decidido a esperar até, enfim, ler um livro num iPad?
Eu leio. Leio até no iPhone. O que eu gosto mesmo, é de ler.

Não quer alinhar na montagem de uma milícia guerrilheira para evitar a aplicação definitiva do mais recente Acordo Ortográfico?
Estou do outro lado — na verdade, estou muito à frente.

Confesse: se soubesse que este inquérito era tão parvo (e tinha tantos palavrões), teria acedido a responder-lhe?
A Patrícia Reis respondeu. Então, decidi responder também.

Não está já um bocadinho cansado da técnica da autodepreciação?
Não pratico autodepreciação — sou angolano. Deixamos isso para os portugueses.

Agora a sério: em que página desistiu da Recherche?
Ainda estou sempre a começar o Ulisses.