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Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo

Traduções da obra e edições estrangeiras:

Landschap Met Vrouw En Zee, 1986, Sjaloom Literair (Holanda);

Landschaft mit Frau und Meer im Hintergrund, 1985, Frauenbuchverlag (Alemanha).

O romance é em grande parte o confronto (através de um monólogo interior) de Hortense, a mulher que perde um filho na guerra colonial, com Oliveira Salazar, responsável por essa guerra e pela situação desastrosa de Portugal durante quatro décadas.

A figura do ditador é encarada não a nível do individual, mas do simbólico. Surge sob a sigla das suas iniciais O.S. (de Oliveira Salazar), porque deixou de ser uma pessoa para se diluir em «tudo»:  como Deus é omnipresente e omnipotente, mas  invisível, está na censura dos jornais, no púlpito das igrejas, nos livros das escolas, é a grande voz que se faz ouvir e obriga ao silêncio todas as outras,  confunde-se finalmente com o som entorpecente, hipnótico, do mar, que convida à resignação e à tristeza.

O Senhor do Mar arrastado num andor pelo povo é uma das suas epifanias, e o derrubar da estátua do Senhor do Mar antecipa o derrubar da ditadura –  que se espelha, noutro passo do livro, no assassinato do Rei (que teve lugar em 1908).

O  mar (encarado numa perspectiva negativa,ao contrário da tradição literária portuguesa), a procissão religiosa, a festa do Senhor do Mar e outros motivos são portugueses, mas O.S. não é «apenas» o ditador Salazar, é também todos os outros, em qualquer época ou lugar.

O  confronto entre as mães de luto e o poder político é aliás um tema antiquíssimo: em Atenas, no século V a.C.,havia legislação sobre os dias em que as mulheres podiam chorar os filhos mortos na guerra e usar luto em sua memória. O poder político sempre percebeu que, se fosse dado aos cidadãos, e particularmente às mulheres, a possibilidade de expressar o luto e a revolta livremente, eles iriam pôr em causa o status quo, e esse era portanto um risco a não correr.

O confronto com o ditador no interior da personagem, através da sua história pessoal, é assumido em todas as suas vertentes, incluindo a dimensão da culpa: se a ditadura se instalou e a guerra colonial se fez, foi porque poucos disseram «não». Também ela, Hortense, não enjeita a sua parte de responsabilidade. Mas gradualmente vai adquirindo a consciência de que ela mesma é, como cada um de nós, um contrapoder e que todos os ditadores caem quando um número suficientemente grande de indivíduos os recusam.

Publicado pela primeira vez em 1982.

«O livro introduz na polarização masculino/feminino uma complexidade que a letra do texto torna literalmente apaixonante.» | Eduardo Prado Coelho, Jornal de Letras, Artes e Ideias.

Editora: Publicações Dom Quixote (1996 (4.ª edição))
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