O Puro e o Impuro (2003)
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O puro e o impuro

Os primeiros poemas deste livro correspondem a um movimento de retração perante o caos do mundo. Longe da «estranha ventania», metáfora desta nossa era de acelerações históricas e catástrofes, o poeta regressa às imagens fundadoras da sua identidade.

O ritmo das estações, a beleza que fere, os dilemas da idade, as raízes e os relâmpagos, a consciência da morte que poisa devagar no ombro («como uma suspeita»), tudo são visões fugazes de quem olha, fixamente, um «rosto de fogo». Procura-se o apaziguamento e a tranquilidade do amor que «reabre o tempo». Invocam-se memórias, a «velha ciência» da espera, paisagens. Mas o que se sobrepõe a tudo é a lucidez melancólica, a noção de que um dia tudo acaba: «Aprende-se devagar a dominar/ a tristeza.» Surgem depois, sem grande surpresa, os poemas de viagem, organizados em dois núcleos: Israel e Islândia. Os versos de inspiração judaica são os melhores e refletem a forma como Viegas experimentou, na Terra Prometida, os mistérios da fé. A poesia em Jerusalém, diz-nos, só pode ser «matéria descritiva, empréstimo, lembrança, explicação». E ele descreve, de facto, o que vê: uma mulher que «ajeita a metralhadora entre os sacos das compras»; as vozes dos profetas junto ao Muro, atravessando os séculos; uma árvore plantada no deserto; ou o intangível «Deus dos perplexos», sem rosto e sem voz.

Editora: Quasi Edições (2003)